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Amar o
que eu sou
Todo
indivisível que constitui o ser
e o
acontecer do meu corpo
no
espaço e no tempo.
Amar
as coisas que eu estou fazendo
e o
modo como eu as faço
Amar
as minhas limitações,
como
amo as minhas possibilidades
e nos
meus acertos e erros
amar o
meu projeto que vai se transformando em obra
no
trabalho da construção de mim mesmo.
Amar-me como eu estou aqui e
agora.
Vivendo a vida simplesmente, naturalmente
com o
ar que eu respiro o chão que eu
piso
as
estrelas que eu sonho,
Às
vezes gostar de mim é um desafio
uma
prova de fogo que releva se eu realmente me
amo
ou
apenas finjo amar-me.
Gostar
de mim na perda
quando
a vida me fechar uma porta
sem
nenhum aviso ou explicação.
Gostar
de mim quando me comparo com os
outros,
quando
me avalio pelos padrões estabelecidos
de
sucesso, beleza, inteligência, poder,
deixando de amar o que sou
em
nome daquilo que me falta
ou
daquilo que me sobra
em
relação ao meu semelhante.
Gostar
de mim quando erro
quando
fracasso
quando
não dou conta
quando
não faço bem feito
e
ainda encontro quem me critique
ou
zombe de mim por eu ter sido
apenas
o que sou:
-
limitado, vulnerável, imperfeito, humano.
Gostar
de mim no fundo do poço,
cabeça
a mil,
coração a zero,
e
ainda assim ser capaz de ouvir e de
respeitar
as
referências do meu próprio corpo
como
um amigo fiel, atento e carinhoso.
Estar
comigo e me fazer companhia
quando
mais ninguém parece estar disposto
a me
escolher e me aceitar.
Estar
do meu lado,
ainda
que tudo e todos permaneçam contra mim.
Minha
vida me pertence de fato e de direito
e
posso me dispor dela da maneira que eu bem
entender.
Se a
minha escolha não for semelhante à sua
não
posso me entristecer
nem
devo me sentir infeliz por não receber o seu
aplauso:
- eu
sou eu e você é você.
Amar-me é descobrir
que eu
sou eu
e ou
outro é o outro.
Não é
preciso que eu me justifique com você a todo momento buscando a sua aprovação para o que eu
faço
e para
o modo como eu estou fazendo:
- Amar
é reconhecer e aceitar as nossas diferenças
e me
amar é dar-me o direito de ser diferente
ainda
que às vezes isso represente ser rejeitado por você.
Amar é
dar a mim o que é meu
para
dar a você o que é seu.
Amar-me é responder presente
à
chamada do presente.
Estar
presente é estar inteiro
e
estar inteiro é estar consciente
das
partes nem sempre lógicas e coerentes
que constituem o meu ser aqui e agora.
Estar
presente é respirar.
Perder
o fôlego é fatal;
-
morro para a vida agora
em
nome de alguma coisa
que eu
penso estar me faltando
que eu
penso que me faltará.
Presente é
o
presente que a vida me dá
a todo
momento.
- Devo
recusar?
Meu
passado é uma gaiola de ferro.
Meu
futuro é uma gaiola de vento.
Uma me
prende por ser tão certa e definitiva
outra,
por ser tão vaga e absurda.
Meu trilema:
querer
poder
e
dever.
Ás
vezes quero, mas não posso
Às
vezes posso, mas não devo
Às
vezes devo, mas não quero.
Gostar
de mim
é
fazer aquilo que eu posso
para
alcançar aquilo que eu quero.
Gostar
de mim
é não
usar aquilo que eu devo
como
desculpa para coisas que eu realmente não
posso.
Só no
presente eu posso voar.
A vida
é a síntese
de
todos os opostos
que
continuam a vida:
-
nascimento e morte
alegria e tristeza
sucesso e fracasso
acerto
e erro
alto e
baixo
bom e
mau
prazer
e dor
Experimento o verdadeiro
auto-amor
quando
descubro,
sob o
véu dos meus conflitos
a
maravilhosa harmonia que existe entre todos os
opostos.
Conheço os sintomas de minha
depressão:
-
Penso nas coisas desagradáveis
que
estão correndo à minha volta;
-
penso nos aborrecimentos
que
estas coisas estão me trazendo;
-
penso em como estou impotente
para
mudar o curso dos acontecimentos;
-
penso que eu sou mesmo um pobre coitado,
vitima
das circunstâncias...
Penso.
É o bastante.
Gostar
de mim
é ser capaz de me
sentir
antes
de me pensar.
Gostar
de mim
é mergulhar na dor que me chega
as
invés de evita-la a todo custo.
Amar a
mim mesmo
é algo
muito diferente
de ser
egoísta.
Só
alguém que não se ama
alguém
que despreza o tesouro
que
possui no seu interior
é
capaz de tornar-se egoísta.
Buscando possuir sempre mais
julgando-se o maior e o melhor em
tudo
tentando ser o centro de todas as
atenções
o
egoísta, no fundo, deseja apenas
ser
reconhecido por todos
como a
pessoa mais importante do mundo.
Alguém
só se torna egoísta
quando
não se sente importante para si mesmo
quando
não consegue se amar.
Quando
eu sou a pessoa mais importante do mundo para
mim
mesmo, entre o eu e eu acontece o verdadeiro amor,
o
amor
que tanto me falta quando eu me rejeito e me
desprezo em nome de ser a pessoa mais
importante do
mundo
para os outros.
O que
sinto , o que faço
de
onde vim, para onde vou
é no
outro que eu traço
o
perfil do que eu sou.
O que
vejo no outro
é a
minha própria imagem refletida.
(É
inútil eu querer me enganar:
- só
vejo uma espinha no espelho
se no
meu rosto tiver mesmo uma espinha...)
Quando
eu compreender o que se passa comigo
posso
compreender o que se passa com o outro.
O
outro deixa de ser um enigma
quando
eu compreendo a enigma que eu sou.
Eu me
relaciono com as outras pessoas
do
mesmo modo como eu me relaciono comigo.
Se eu me amo, não sei te
odiar
Se eu
me odeio, não sei te amar
Se eu
me desprezo, não sei te respeitar
Se eu
me respeito, não sei te desprezar
Como
eu te aceito, se eu me rejeito?
Como
eu te rejeitar, se eu me aceito?
Celebro o amor a mim mesmo
o
nascimento do amor pelo meu próximo.
Observo o meu ritmo
a
maneira pela qual eu existo
e
funciono como pessoa.
- Sou
um processo em permanente transformação.
(Todas
as vezes que eu saio do meu ritmo eu
danço...)
Trata-se da minha vida,
da
única coisa que eu sou e possuo neste mundo.
Posso
fazer dela o que eu quiser:
-
viver do meu modo, segundo o meu ritmo,
correndo o risco de desagradar umas tantas
pessoas,
ou submeter-me à vontade dos outros
correndo risco de sentir-me traído e abandonado
em
relação a mim mesmo.
Posso
me decidir por mim
ou me
decidir pelos outros.
Mas
qualquer que seja a minha escolha
terei
de carregar sozinho o peso da minha decisão.
Para
lhe dizer eu te amo
devo
aprender a me dizer eu me amo.
Do
contrário meu amor por você
é
apenas uma desculpa
um
artifício para conservá-lo
na
minha coleção particular de objetos úteis.
Antes
de você existe
EU,
sem
que isso signifique presunção da minha parte
ou
menosprezo pelas sua pessoa.
E
embora eu me sinta muito feliz com sua
presença,
antes
de estar com você, estou
COMIGO,
não
lá, num lugar imaginário de encontro, mas
AQUI
AGORA.
Geraldo
Eustáquio de Souza
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